sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Al Gore, O missionário ambiental


Costumava ser o próximo Presidente dos EUA. Em vez disso, tornou-se na voz dos ecologistas. Conheça o homem que quer salvar o planeta


Imagine como ficará alguém que vence o jackpot do Euromilhões e, a caminho de reclamar o prémio, perde o boletim. Ou melhor, que lho roubam.Foi mais ou menos isso que Al Gore sentiu, em Dezembro de 2000. A um passo de se tornar na pessoa mais poderosa do planeta, depois de ganhar o sufrágio popular por mais meio milhão de votos do que o adversário, George W. Bush, é brutalmente acordado do sonho de uma vida por um Supremo Tribunal de maioria republicana, que impede recontagens no Estado-chave da Florida.O ex-«vice» de Clinton perdeu algum tempo a juntar os cacos e a recompor-se. Engordou, deixou de fazer a barba, exilou--se, durante seis semanas, na Europa. Desapaixonou-se de uma democracia que, aos seus olhos, o traiu. Mas depressa se reapaixonou: o Ambiente passaria a ser a causa da sua vida. Em 2006, seria eleito líder da Geração Verde, após despertar milhões de pessoas para o aquecimento global, com Uma Verdade Inconveniente, um documentário que pouco mais é do que um molho de gráficos por ele explicados. Os EUA não quiseram Gore e o mundo agradeceu a oferta.A nova cara de Arnold Albert Gore Jr., 59 anos, apenas é improvável para quem não acompanhou de perto a sua carreira. Os sinais já vinham de trás. Gore foi um dos primeiros políticos a referir-se à necessidade de reduzir as emissões de dióxido de carbono (CO2), no final da década de 70, quando os cientistas começavam a entender o efeito de estufa. Usava, assim, o pedestal político para dar voz aos alertas de Roger Revelle, seu professor em Harvard e pioneiro na medição dos níveis de CO2 na atmosfera.Ao jovem congressista, que sentia a política correr-lhe nas veias, não lhe passava pela cabeça que esse seria o seu primeiro passo no caminho da evangelização do mundo. Mas ainda levaria quase 30 anos até se tornar num missionário ambiental de corpo e alma.



Faz-se à estrada


Al Gore nasceu na capital dos EUA, em 1948, fruto do baby boom que se seguiu à II Guerra Mundial. Filho de Al Gore Senior, um membro da Câmara dos Representantes (que se tornaria senador, cinco anos mais tarde), e de Pauline LaFon (uma das primeiras mulheres a tirar uma licenciatura na prestigiada Universidade de Direito de Vanderbilt), passou uma infância repartida entre um claustrofóbico quarto de hotel, em Washington, e a enorme quinta da família, na vila de Cartago, no Estado sulista do Tennessee.Como qualquer pai, Al Senior tentou transmitir ao filho as suas próprias ambições: Junior foi educado para, um dia, ser Presidente. Cresceu rodeado de políticos, estudou na melhor universidade do país, aprendeu o valor do trabalho nas plantações de tabaco dos pais. Até passou pelo cliché de se casar com a mulher que conheceu no baile de finalistas.Pacifista, teve a oportunidade de imitar Bush, usando as influências familiares para integrar a confortável Guarda Republicana e assim fugir ao Vietname. Mas acabou por se alistar, para que o seu pai não fosse prejudicado politicamente. A Administração Nixon, porém, com medo de que alguma coisa acontecesse a Gore Junior e aumentasse a simpatia popular pelo senador, suspendeu temporariamente a sua ida para a guerra. Pelo menos, até Gore Senior perder a reeleição, no Tennessee, para o republicano Bill Brock, em 1970.Al serviu no Vietname como repórter do jornal militar, durante cinco meses. Regressou desiludido com a democracia que desprezou o seu pai e encaminhou milhares de jovens para a morte, numa guerra inútil. Tornou-se jornalista do Tennessean, o maior jornal do Estado. Mas o bichinho da política voltou a morder. Em 1976, dá uma alegria a Gore Senior, como este recordou, numa entrevista, em 1992, repetindo o diálogo com o filho. – Pai. – O que foi, filho? Alguém se magoou? – Não, não. O nosso congressista acabou de anunciar que não vai voltar a concorrer e eu vou candidatar-me.Minutos antes de fazer o seu primeiro discurso de candidatura, Al Gore vomitou.


A evolução de um político


Nos primeiros tempos como congressista eleito pelo Tennessee, Gore mostrou-se um defensor dos temas queridos ao Estado rural e conservador que representava. Era contra o aborto, apoiava o lóbi das armas e chegou a apelidar a homossexualidade de «anormal». Evoluiu e, ao passar cada vez mais tempo longe do Sul, tornou-se num político bem mais liberal – amigos asseguram que o nascimento das três filhas muito contribuiu para isso. Hoje, odeia que lhe recordem as velhas convicções. Quando lhe perguntam se deslizou para a esquerda, Al Gore prefere ignorar o passado, garantir que se mantém no mesmo sítio e dizer que a actual administração americana, ao fugir para a direita, é que forma a ilusão de que todos os outros se transformaram em liberais.O seu maior conflito interno, no entanto, foi o tabaco, nos momentos em que teve de tomar posição no Congresso. A terra que havia eleito Gore dependia das plantações para sobreviver, e a sua própria família tinha uma. O congressista aprovou leis que obrigavam a alertas mais visíveis nos maços, mas defendia os apoios financeiros à produção. Uma dolorosa ironia chegou, em 1982: a irmã mais velha, Nancy, uma fumadora compulsiva, estava a morrer de cancro. A família acabaria por abandonar as plantações, embora Gore sentisse ter uma obrigação para com o povo que o elegeu. Durante anos, a tragédia pessoal manteve-se na sombra das necessidades do Tennessee.Em 1988, aos 39 anos, disputou as primárias do Partido Democrata, para se candidatar à Presidência. Tentou evitar ataques à sua idade, comparando-se com John Kennedy. «Há 27 anos, os eleitores americanos substituíram o homem mais velho a ocupar a Presidência pelo mais novo de sempre. Acredito que estão preparados para o fazer outra vez.»Não estavam. Nos anos seguintes, teria tempo para a primeira grande incursão pelo Ambiente. Vinha aí um livro polémico e arrojado.



O primeiro ‘best-seller’


Pouco depois de abandonar a corrida à Presidência, o seu filho, Albert III, foi atropelado e ficou algumas semanas ligado às máquinas. Gore reavaliou a sua vida. Gorada a candidatura, teria de encontrar outra forma de fazer a diferença. Escreveu Earth in the Balance (A Terra à Procura de Equilíbrio), um tratado ambientalista que já alertava para os efeitos do aquecimento global e para a urgência de avançar com planos políticos fracturantes como única forma de salvar a Terra. Numa frase que se tornou famosa, Gore resumia o seu trabalho: «Temos de tornar a salvação do Ambiente no objectivo central da nossa civilização.» O livro foi uma pedrada no charco.Publicado em Junho de 1992, viria a ser a primeira obra escrita por um senador a constar da famosa lista de best-sellers do New York Times, desde Profiles in Courage, de John Kennedy. O que enfureceu ainda mais os conservadores, chocados com o radicalismo de um livro que, diziam, estava recheado de ideias perigosas para a economia e para o modo de vida americano. E, nos EUA, ser acusado de perturbar o tal «modo de vida» é uma heresia aos olhos dos eleitores e, politicamente, quase fatal. Ainda mais perigoso seria pela proximidade das eleições presidenciais, com a dupla Clinton-Gore a concorrer contra George Bush (pai) e Dan Quayle. O candidato republicano a vice-presidente aproveitou Earth in the Balance para desancar Gore, chamando-lhe «um hipócrita» que enchera o livro de «porcaria liberal» para ganhar simpatias entre os ecologistas. [Felizmente para Gore, a voz de Quayle não chegava ao céu. O homem ainda hoje é famoso pelas suas gaffes monumentais, que fazem o actual presidente parecer um poço de cultura: desde soletrar mal a palavra «batata» a frases como «O futuro será melhor amanhã».]Os ataques não o abalavam. Se Gore já provara ser um político amante de consensos, adaptável e pronto a evoluir em vários assuntos, no Ambiente não faria concessões. Nunca e a ninguém. Recusou-se sempre a mudar uma vírgula que fosse das suas ideias em Earth in the Balance. «Já esperava essas críticas e, hoje, uso-as como medalha de honra», comentou, recentemente.


Um ‘homem brilhante’


Antes de conhecer Bill Clinton, Gore dizia que não queria ser vice. Depois, mudou de ideias – estar na sombra de um homem que se admira não envergonha. Na noite da vitória, Gore definiu o Presidente: «Clinton ganhou porque estava preparado para perder. De onde venho, temos um nome para isso: carácter.»Ser vice-presidente é um dos cargos mais ingratos. Não toma verdadeiramente decisões, não colhe os louros dos sucessos, mas partilha os fracassos. Gore, apesar de tudo, teve a promessa de Clinton de que ficaria com pastas importantes nas mãos. Mesmo assim, continuava a ter mais tempo livre e menos responsabilidades do que queria. O Ambiente volta a concentrar-lhe as atenções. Em 1994, funda a Globe (acrónimo em inglês para Aprendizagem e Observações Globais para Beneficiar o Ambiente), uma associação internacional, com 109 países representados, que se dedica a acções de formação e educação ambiental.Carlos Pimenta, 52 anos, conheceu-o através da organização, quando era presidente europeu da Globe. O ex--secretário de Estado do Ambiente e ex-eurodeputado, conhecido pelo seu trabalho nas causas ambientais e nas energias renováveis, fez equipa com Gore durante 12 anos. Ficou a admirá-lo. «É um homem são, sincero, de princípios, persistente e honesto nas suas convicções. Uma pessoa brilhante e em quem se pode confiar.»Nos oito anos que passa sentado na segunda cadeira da Casa Branca, Gore mostra-se um entusiasta natural do Protocolo de Quioto. Em 1998, assina o tratado em nome dos EUA, mas o Senado avisa que não ratificará um documento que deixava de fora os países em desenvolvimento, nas obrigações de reduzir os gases com efeito de estufa.O acto acaba por se cingir ao seu simbolismo. Em 2000, com a vitória de George W. Bush, escreve-se uma das páginas mais embaraçosas da história da democracia americana e Quioto é posto no lixo. Por todas as razões, Al Gore quer justiça. Que não passará por uma desforra política. Nos anos seguintes, apontaria os canhões à Administração Bush, sim, mas num só sentido: desmascarar a política energética, que considera criminosa para o planeta. Ao lado do aquecimento global, tudo o resto parece mesquinho.

Sem comentários: